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15) Histórias

Dentro do druidismo, assim como em várias outras tradições espirituais, as histórias tem um papel muito importante, porque é através delas que o conhecimento é passado de forma simbólica para a Tribo.

Nem todo mundo está preparado para receber o saber puro, ainda mais quando tratamos de temas profundos como aqueles abordados pela religião: quem são os deuses, como o Mundo foi criado, de onde viemos, para onde vamos após a morte etc. E é aí que entra a linguagem simbólica que é inerente às histórias.

Quando as lendas eram contadas ao membros do clã, esperava-se que através dos exemplos dos heróis descritos nos contos e de seus feitos fabulosos, as pessoas pudessem compreender as questões éticas e morais ou entender os ciclos da natureza ou ainda aprender uma gama de outras coisas que pudessem ser interessantes, mas que seriam de difícil assimilação através de ensinamentos diretos.

E ainda hoje podemos aprender muito sobre o pensamento celta, sua forma de viver, seus códigos de conduta e sua relação com o Mundo ao conhecermos suas velhas histórias. Mas não basta apenas lê-las ou as decorar. Se não formos atrás de desvendar sua simbologia, elas serão apenas fábulas desprovidas de significado e vazias de sabedoria.

É fundamental que o druida enxergue essas histórias com outros olhos e busque nelas sua origem e sua alma, para só assim estar pronto para acessar o antigo saber que elas trazem.

14) Meditação

Quando falamos em meditação, muita gente logo pensa em deixar a mente vazia e não pensar em nada. E realmente as meditações desse tipo, as meditações de concentração, são muito válidas e importantes para remover distrações e permitir ver o mundo com mais clareza. Afinal somente com a mente desperta podemos estar prontos para refletir e ponderar sobre nossos questionamentos.

Outra forma são as meditações contemplativas, ferramentas para a compreensão de questões e ensinamentos muito profundos, principalmente quando se tratam de temas que extrapolam as capacidades de nossas mentes racionais. Para esse tipo de assunto, a meditação contemplativa permite ativar outras faculdades intelectuais mais internas e assim conseguir as respostas que procuramos. Nesta prática, devemos nos sentar em uma posição confortável e em primeiro momento esvaziar a mente para em seguida começar a refletir a respeito do assunto em questão, deixando a mente livre para ir além do racíocinio normal, em direção a resposta que buscamos.

No Caer Ynis costumamos fazer uma meditação focada logo no início de cada ritual, onde cada participante escolhe um objeto do altar como auxiliar na jornada meditativa e deixa que o espírito desse objeto o guie.

Particularmente tive uma experiência muito forte nesse tipo de meditação quando iniciei minha jornada pelo Caminho do Guerreiro. Sem preparo algum decidi meditar com a Espada desembainhada sobre o colo e esta me levou para os campos de batalha, onde pude perceber que a guerra não é romântica como nos contam e que deve ser a última opção de um povo.

Meditações de concentração, contemplação ou focadas devem ser uma constante na vida de um druida, pois são ferramentas muito valiosas e que permitem ir além dos limites da razão, em busca da compreensão de questões pertinentes em seu ofício.

13) Inspiração

Toda religião coloca o homem em uma busca e é necessário estudo, dedicação, fé e compromisso para alcançar este objetivo. Algumas propõem a busca por Redenção, outras por Libertação, outras ainda por Poder e por aí vai. No druidismo nossa busca é por Inspiração.

E a Inspiração, que alguns chamam de Imbas ou Awen, é a forma de percebermos os recados que nossos deuses nos dão e as indicações de que caminho seguir em nossa jornada. Ao mesmo tempo, a Inspiração é um presente que recebemos e que permitem que alguns de nossos dons aflorem.

Ela pode se manifestar de várias maneiras: seja através de uma canção ou poema que pipoca em nossa mente, em um sonho revelador, nas palavras certas que saem da boca e um momento oportuno, em uma voz que fala dentro de nossa cabeça com bons conselhos, em uma idéia inovadora que surge de repente…

Dizemos que está Inspirado alguém que realiza alguma coisa que deixe os demais extasiados, surpresos e felizes. E é assim, porque alguém Inspirado fala como os deuses!

12) Roda do Ano

Quando falamos em Roda do Ano estamos falando do ciclo anual composto na maioria das vezes por quatro ou oito festivais e que marcam a passagem das estações, relacionando estas às fases de nossa vida e tecendo uma ligação que nos permite aprender sobre nós mesmos ao observarmos as mudanças na paisagem.

Eu costumo dizer que ser druidista aqui no Hemisfério Sul já começa complicado, pois o iniciante já se depara com uma dúvida muito grande: Roda do Sul ou Roda do Norte?
E essa decisão não é fácil já que inúmeros fatores devem ser levados em consideração. Coisas que a maioria dos iniciantes (e muitos dos veteranos também) nem mesmo imaginam, como questões astrológicas por exemplo, podem influenciar nesta tomada de decisão.

Aqueles que usam a Roda do Norte costumam alegar a questão da Egrégora, de como já é tradicional celebrar os festivais naquelas datas e que outras espiritualidades não tem suas datas invertidas no Hemisfério Sul.

Quem celebra pelo Sul usa como principal argumento o fato de que o druidismo é uma religião da natureza, que observá-la faz parte dos ensinamentos do druida e que a Roda do Ano é simbolicamente a própria passagem do ano.

Quando comecei a praticar o druidismo essa dúvida também me assolava e todos os argumentos pareciam ter sentido para mim, tanto dos que defendiam a Roda do Norte quanto os que defendiam a Roda do Sul.

Eu já achava que solstícios e equinócios devem ser celebrados em sua própria data e não havia Egrégora que pudesse me convencer do contrário. No druidismo não tratamos o Solstício de Inverno como Yule ou Equinócio de Outono como Mabon; vamos na cerne de seu significado e por isso esses festivais precisam ser observados como realmente são.

O maior problema é que Lughnassadh por exemplo, fazia sentido para mim tanto em fevereiro quanto em agosto. Temos muitas colheitas no Brasil e por vezes eu pensava em respeitar a Egrégora da Tradição e por vezes pensava no ciclo da Natureza.

Mas foi em uma viagem em família que eu recebi a Inspiração que guiou meu caminho e é justamente isso que quero compartilhar com vocês hoje.

Estive no final de julho de alguns anos atrás em São Joaquim, no planalto catarinense, para visitar minhas avós e meus tios. Já tem muitos anos que não moro mais lá, mas meus pais e eu sempre vamos até minha cidade natal para rever a família.
Na viagem de volta passamos por um campo onde vários cordeirinhos brincavam e pulavam, quando meu pai comentou: “é, está mesmo na época das ovelhas começarem a nascer”.

Aquilo caiu na minha cabeça como uma bomba: estavamos próximos do começo do mês de agosto, dias antes de celebrar Imbolc/Oilmec que significa provavelmente “lactação das ovelhas”. E eu pensei comigo: Bingo!!
Era essa a peça que faltava para eu compreender a Roda do Ano e foram as pequenas ovelhinhas que me deram a pista.

Desde então a Roda pelo Sul ganhou um maior sentido para mim e percebi o quanto as estações do ano influenciavam em minha vida e como meu corpo, minhas atitudes, minhas conquistas e meu humor eram reflexo disso tudo. Não consigo mais celebrar Beltane no final do verão e não me importo com sua proximidade com Finados. Tampouco me importo que Samhain fique tão longe do dia cristãos dos mortos, pois percebo que nossa visão e a visão deles é muito diferente; enquanto uns choram, outros brindam.

E a cada ano que passa, cada giro que a Roda dá, procuro me alinhar com o Planeta, sentir as nuances e perceber os melhores momentos para agir ou me recolher, para falar ou para ouvir, para plantar ou para colher. E acho que essa visão é que permite ao druida compreender este Mundo e também o Outro.

11) Ritual

As vezes acho que sou meio herético quando se trata de minhas crenças druídicas. Estou entre o renascimento druídico e o reconstrucionismo celta, mais ou menos no meio do caminho.
Sei que muito do que o druidismo renascido nos apresenta vêm de fontes duvidosas e que boa parte são invenções (ou inspirações, como diriam alguns) de Iolo Morganwg, mas muito do que ele traz é extremamente válido. “Funciona”, como eu costumo dizer.
Do mesmo jeito, por mais que o reconstrucionismo beba em fontes arqueológicas confiáveis, nas vezes que tentei trabalhar exclusivamente por esse lado senti uma falta de sentimento em meus rituais. Eram como fórmulas vazias e sem significado, como antigas orações recitadas em gaélico. Não quero dizer que isso não funcione para ninguém; só que para mim não funcionou.

Quando comecei a participar dos rituais do grupo que viria a se transformar no Caer Ynis, comecei a perceber como a forma do rito tinha pouca importância: girar para um lado, convocar primeiro ou depois, levantar ou abaixar os braços. Quem já celebrou conosco já deve ter percebido que sempre algum detalhe saia diferente do esperado. O que contava mesmo era a emoção que a cerimônia trazia em sua essência e que transmitia aos demais irmãos do círculo e de fora dele.
Toda a ritualística servia apenas para que nossas mentes pudessem se concentrar em alguma coisa e direcionar essa concentração na forma de magia, cura e inspiração.

O que eu hoje aprendi é que a liturgia pode variar, mas a intenção deve sempre prevalecer. O importante não é o ritual em si, mas o comprometimento do druida com sua tribo, com seus deuses e com a comunidade.

Outro ponto que é consenso no druidismo é o respeito aos Espíritos da Natureza. Mas o quem são esses Espíritos?

Todas as formas de vida são habitadas por uma fração da Força Primordial do Universo e a isso chamamos alma ou espírito. Por outro lado podemos dizer que os espíritos buscam formas corpóreas para interagir neste Mundo (e o mesmo deve acontecer no Outro Mundo também, mas não me recordo da última vez que estive lá). E quando falamos de formas corpóreas estamos falando em muito mais do que seres vivos (pela visão racional), pois além de animais e plantas, rios, pedras e montanhas também tem seus espíritos.

Como já disse no 8º Dia, temos uma visão animista (ou pelo menos aqueles que compartilham meu druidismo) e por acreditar que as almas são as verdadeiras essencias, enquanto os corpos são apenas receptáculos, não podemos nos considerar melhor que os outros seres, pois por baixo dessa capa de carne, somos todos iguais.

Rios e lagos, pedras e árvores, animais e humanos; todos contêm em si parte da Força que anima nosso Universo e que torna ele algo vivo. Saber interagir com esses seres é parte fundamental da busca do druida pelo entendimento do Mundo.

9) Ancestrais

É um consenso entre a maioria dos druidistas que conheço a crença na necessidade de se honrar e homenagear nossos Ancestrais. A maioria de nós também os classifica entre ancestrais de Sangue, da Terra e da Tradição.

Quando falamos em ancestrais, a primeira coisa que lembramos são de nossos parentes que viveram antes de nós. Essa é a forma mais usual de entender esse conceito e é comum a muitas pessoas, mesmo fora do druidismo e a estes chamamos Ancestrais de Sangue.

Uma vez aprendi com um de meus mestres que podemos dividí-los em três níveis: os antecessores (os ramos mais próximos que são nossos pais, avós e quiçá nossos bisavós), antepassados (os ramos mais afastados como trisavós, tataravós e os tataravós destes) e ancestrais (os ramos mais distantes, antigos e dificeis de seguir na árvore genealógica).

A Ancestralidade Sanguínea representa um dos mais fortes laços que temos com o Mundo: nossa Família. E não é a toa que entre os Celtas os laços familiares eram tão importantes e dignos de sacrifícios e honras.

Além destes, respeitamos também os Ancestrais de nossa Tradição, que foram aqueles druidas que viveram o druidismo antes de nós e que a qualquer custo mantiveram as chamas deste saber acesas para que um dia pudessemos chegar até eles e ser iluminados por seu conhecimento.

Hoje em dia a forma e o conteúdo do druidismo mudaram. E mudaramo porque o Mndo também mudou. Porém sua cerne permanece a mesma e esse é o legado de nossos Ancestrais de Tradição e é por isso que precisamos prestar também nossas homenagens a eles.

E muito tempo antes de nascermos já viviam homens nesta região. Homens estes que levantaram os prédios, construíram as estradas e as pontes. E ainda antes deles outros homens viveram aqui, que cultivaram a terra, homenagearam os deuses e construíram nosso Santuário. E a estes chamamos Ancestrais da Terra; todos que viveram aqui antes de nós e que nos deixaram seu legado para que dessemos continuidade em seu trabalho.

Honrar aos Ancestrais de Sangue, de Tradição e da Terra é honrar nossas origens e nossas raízes. É saber que sem uma base forte e saudável não podemos crescer. E saber que um dia nós também seremos Ancestrais das novas gerações, porque a Roda gira, sempre gira.

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